Apetite pelo caos

•Setembro 13, 2009 • Deixe um comentário

Um pouco do mundo de Nick Cave, e a publicação de seu segundo livro, em matéria tradudiza do The Independent.

Nick Cave, mais conhecido como o líder do Bad Seeds que canta sobre assassinatos, loucura e corações partidos, é também escritor e ator.

Seu segundo livro, The Death of Bunny Munro, começou como um roteiro de cinema comissionado pelo diretor John Hillcoat, compatriota australiano para quem Cave já havia escrito o western de 2005 The Proposition, passado no deserto de seu país conhecido como Outback. O novo roteiro era para ter três elementos: um caixeiro viajante, uma experiência extra-corporal e uma cena em um resort inglês.

Cave diz que escreveu o roteiro em poucas semanas e que, apesar dos elogios, ninguém quis filmar. John partiu para outro projeto e um amigo de Cave sugeriu que ele reescrevesse a história para virar livro, o que acabou acontecendo no tempo livre durante uma turnê de dois meses pela Europa, quando o músico transformou a primeira cena em prosa. “Aquilo me arrebatou,” ele lembra. “De repente eu tinha três ou quatro parágrafos e pensei, ‘Talvez estou escrevendo um livro’. Não apenas me diverti escrevendo como também senti que tinha um livro por tanto tempo guardado mas estava com muito medo de colocar no papel. Quer dizer, o último quase me matou.”

O outro livro de Cave, And the Ass Saw the Angel de 1989, é uma história barroca de um menino mudo que cresceu em uma cidade de religiosos fanáticos que praticam revanche implacável contra seus opressores. O músico estava morando em Berlim quando o escreveu, sobrevivendo a base de heroína e speed. Rumores de uma suposta falta de tinta e o uso de seu próprio sangue para finalizar a história ainda persistem.

“Eu estava imerso no mundo daquela história de um jeito destrutivo particular,” afirma.  “Eu me tornei o personagem principal por três anos. Foi estranho. As obsessões daquele personagem enormemente obcecado se tornaram as minhas. Das músicas você pode entrar e sair, mas um livro… bem, ele pode te superar.”

Em contrapartida, enquanto escrevia The Death of Bunny Munro, Cave conseguiu manter distância – um alívio considerando o apetite do protagonista por sedução em série e masturbação ao ar livre. O livro conta a história de um vendedor de creme hidratantes louco por sexo que volta de uma noite com uma prostituta e descobre que sua mulher se suicidou. Tendo que tomar conta de seu filho, Bunny Junior, Munro embarca em uma odisséia perversa na costa sul da Inglaterra, enquanto tenta ensinar ao filho os ofícios de um vendedor.

Cave baseou seu personagem em uma descrição do homem pela radical feminista e quase assassina de Warhol, Valerie Solanas, autora do Manifesto SCUM [Society for Cutting Up Men]. “Ela escreveu uma descrição muito furiosa e precisa do homem: algo entre um humano e um macaco; um ser insensível preocupado apenas com sensações físicas e sem a capacidade de empatia ou auto-conhecimento ou envolvimento, e ao mesmo tempo cheio de ódio e ciúme e vergonha e culpa. A descrição dela é bela e de certo modo, acredito, inteiramente correta.”

The Death of Bunny Munro também explora a relação entre pai e filho. Enquanto Munro considera seu filho uma inconveniência, Bunny Junior idolatra seu pai e permanece cego para suas falhas. Pode-se imaginar que o assunto é desconhecido para Cave, cujo pai, um professor de literatura inglesa, morreu em um acidente de carro quando ele tinha 19 anos.

“Quando olho pra trás percebo que o motivo pelo qual escrevi And the Ass Saw the Angel foi que meu pai sempre pensou que escrever um livro era o que importava, não o rock and roll,” reflete Cave. Ele morreu pouco antes de eu escrever aquele livro, que foi portanto escrito por razões estranhas. Foi basicamente escrito pra ele. Apesar de ser sobre a relação entre pai e filho, não penso que  Bunny Munro tenha qualquer relação com isso. Penso que tem mais a ver com o fato de eu ter meus próprios filhos. Tenho gêmeos de nove anos de idade. Eles estão naquela fase bonita em que sou o Super-homem e não importa o que eu faça, é nisso que acreditam. Tenho filhos mais velhos também, por isso sei que as escalas de medidas em breve mudarão.”

Nascido em Warracknabeal, na Austrália rural, a infância de Cave foi marcada pelo caos. Depois de ser expulso do colégio de arte no fim dos 70, ele formou sua primeira banda de pós-punk, a Birthday Party. Chegando na Inglaterra de Melbourne no começo dos 80, eles se tornaram conhecidos pela intensidade sanguenta dos seus shows ao vivo. Em 1984, a banda acabou e abriu caminho para a Bad Seeds, com quem Cave desenvolveu todo seu potencial como compositor e artista. Os shows eram espetáculos insanos nos quais Cave se tornava um pregador demoníaco declamando letras teatrais obscuras em um uivado furioso.

A metade da da década de 90 trouxe, finalmente, suavidade ao espírito de Cave, sem dúvida resultante do abandono da heroína. Hoje ele mora em East Sussex com sua mulher, a modelo Susie Bick, e seus filhos, e trabalha no escritório, no porão de sua casa, das nove às cinco todos os dias.

Muito se falou sobre a trajetória de Cave de personagem selvagem do rock para, como ele petulantemente coloca, “Satisfeito de Hove”. Agora Cave transporta o apetite pelo caos para a escrita. “Quanto mais estabilizado me torno, mais problemáticos meus personagens se tornam,” observa. “Houve a época em que escrevi letras sensíveis e gentis e isso foi no período mais destrutivo da minha vida. Acho que você escreve sobre aquilo que precisa, de certo modo. Mas sempre aprendi que quanto mais me separo do meu trabalho, mais interessante e dramático ele se torna. É errado confundir a história com o contador da história. Há algum tempo fiz um esforço consciente pra me afastar da cena e levar uma vida onde não houvesse uma história.”

Com dois livros no currículo, Cave está longe de se considerar um escritor. Ele está atualmente trabalhando no roteiro adaptado de The Wettest County in the World, livro de Matt Bondurant sobre uma gangue de contrabandistas de licor em  West Virginia. “Eu apenas passo para  o próximo projeto,” ele dá de ombros. “Não há um plano… O livro ainda soa como algo novo.”

Você escreverá outro, pergunto?

“Sim, acho que sim,” responde Cave.”Ao menos, vou tentar.”

Can try harder, never heaviest

•Agosto 7, 2009 • Deixe um comentário

Esse sábado, oito de agosto, marca os 40 anos do dia em que os Beatles atravessaram a faixa de segurança da Abbey Road no que virou a capa do disco de mesmo nome e último da banda. Fãs se encontrarão às 11h35, hora exata em que a foto foi registrada para recriar a capa icônica.

Eu já tenho a minha, feita pelo Wilson em janeiro desse ano. Me antecipei, mas mesmo assim publico aqui, juntamente com a dica de uma peculiar matéria do The Guardian, lançando o desafio de outras capas de disco, mais a webcam instalada em frente aos estúdios, pra quem quiser conferir o espetáculo ao vivo.

anaabbey

And we went into a dream

•Junho 28, 2009 • Deixe um comentário

Ano passado o Wilson e eu assistimos a um show do Neil Young, e ontem a outro, com quase o mesmo repertório. A diferença é que dessa vez, no bis de A Day in The Life, Paul entrou no palco, na metade da música, e nós entramos em um sonho. Ah.

Bem mais ao norte, ou 66°N

•Junho 7, 2009 • Deixe um comentário

“Esta es la línea del Circulo Polar Ártico. Aquí dentro en las noches de verano no se pone el sol. Es el sol de la medianoche. Que raro, ¿verdad?”

Blowup

•Maio 6, 2009 • Deixe um comentário
What did you see in that park?

What did you see in that park?

Toquem como se tivessem o cabelo em chamas

•Abril 20, 2009 • Deixe um comentário

Acabei de ler Innocent When you Dream, livro que reúne a coleção de entrevistas com Tom Waits. O texto que segue é parte de uma matéria escrita por Elizabeth Gilbert (e publicada na revista GQ), em junho de 2002.

Tom Waits seria o Springsteen dos Estados Unidos da América – se os EUA fossem uma estranha terra habitada por aberrações de circo.

Ele nunca pareceu uma criança normal. Era baixo, magro, pálido. Parava em pé de maneira esquisita. Tinha problema em um dos joelhos. Não havia escova, loção, ou religioso nesse mundo que fizesse seu cabelo ficar bem arrumado. Ele leu muitos livros. Era excessivamente fascinado por carnavais, tesouros escondidos e música mariaqui.

Quando ficava nervoso, mexia-se para frente e para trás como um rabino concentrado na sua reza. Ele ficava nervoso facilmente.

Mais que isso, havia algo de errado com ele (talvez, ele acredita hoje, alguma relação com o autismo) que o tornou quase que dolorosamente obcecado com o som. Ele ouvia barulhos como Van Gogh via cores – exagerados, belos, brilhantes, assustadores. Os sons que o cercavam faziam ele se arrepiar, sons que ninguém mais parecia ouvir. Os carros que passavam em baixo da sua janela faziam mais barulho que trens. Se ele passasse o braço perto da cabeça, ouvia um assobio como quando se atira uma rede de pesca. Se passasse a mão no lençol, ouvia um arranhão. Absorvido por esses barulhos, via-se obrigado a limpar a mente recitando alto sílabas arritimadas sem sentido até que pudesse pensar direito novamente.

Quando tinha onze anos, seu pai – um professor de espanhol que costumava levar o filho de San Diego para a fronteira mexicana para cortar o cabelo – deixou a família. Assim o menino não tinha mais um pai. Fixou-se em pais como resultado. Visitaria as casas dos amigos e vizinhos, não para passar o tempo com eles mas com os pais deles.

Ele queria tanto ser mais velho que pirou. Não podia esperar para se barbear. Aos onze, usava o chapéu e a bengala do avô. E amava as músicas que os mais velhos amavam. Música com algum cabelo grisalho no peito. Música que há tempos não se ouvia.

Nos últimos 30 anos, Tom Waits teve uma carreira musical diferente de todas as outras. Ele não teve uma subida meteórica para a fama. Apenas surgiu – simples, gentil, melancólico, experimental, um cantor de bar, pianista, vagabundo recluso em um terno de sete dólares e um chapéu que bem poderia pertencer a um senhor de bastante idade – e é assim que ele continuou. Apesar de experimentar infinitamente com a música (desde seu primeiro álbum, Closing Time de 1973,ele nos deu blues trágico, jazz narcótico, ópera alemã sinistra, e mambo carnavalesco embriagado, para nomear apenas alguns estilos), ele nunca experimentou com sua imagem, e é por isso que você sabe que não é uma “imagem.”

Raramente se vê Tom Waits em público, embora ele não seja um heremita. Ele às vezes sai em turnê, se apresentou no Tonight Show e atuou em alguns filmes (The Cotton Club, Drácula de Francis Ford Coppola, Short Cuts de Robert Altman). Ainda assim, prefere sua privacidade.

A sua voz não é a de um trabalhador comum. É mais a voz de uma aberração de circo comum. Mas sua voz é querida, épica, e honesta, e ele representa sua constituição peculiar com verdadeira honra. O que significa: se apenas houvessem tantas aberrações de circo nos EUA como há trabalhadores, Tom Waits seria Bruce Springsteen.

Tom Waits é repleto de fatos. E mantém esses fatos escritos em um caderno de anotações, também preenchido por guias de direção e letras de músicas não terminadas e jogos da forca que ele tem jogado com o filho mais novo. Sua escrita é uma disformidade louca de letras maiúsculas enormes, rabiscadas. Você iria jurar que era a caligrafia de um aleijado forçado a segurar a caneta na boca.

Kathleen Brennan, sua esposa, está em todo lugar, mas é invisível. Ela é privada como um banco, rara como um unicórnio, nunca fala com repórteres. Mas ela é o centro de Tom Waits – sua musa, sua parceira, e mãe dos seus três filhos. E às vezes, quando faz shows, você o ouve murmurar, quase a si mesmo, “Essa é para Kathleen”, antes de tocar “Jersey Girl”.

Tom Waits está sempre procurando novas maneiras de ouvir ou apresentar coisas. (“Toquem como se tivessem o cabelo em chamas,” ele instruiu músicos no estúdio, quando não pode explicar sua visão de nenhuma outra forma.

Essa tempestuosa relação com a música é a história de sua vida. Com tamanha hipersensibilidade (mais sua natureza negra inerente) Tom Waits poderia ter enlouquecido. Ao invés disso, ele embarcou em uma missão para buscar uma trégua entre ele e o som. Uma trégua que, através dos anos, transformou-se em algo como uma colaboração. Por que agora você pode ver tudo junto, lado a lado. Tudo o que Tom Waits é capaz. Toda a beleza e toda a perversidade. Todo o talento e toda a discórdia. Tudo que ele deseja honrar e tudo que deseja desfazer. Tudo maravilhoso, transmissor.

Tão maravilhosamente transmissor que, na verdade, quando você ouve suas músicas, sente que alguém lhe vedou os olhos, hipnotizou, deu ópio, tirou a direção e agora lhe guia para trás em um carrossel das suas próprias vidas passadas, pedindo-lhe para tocar todos os animais de madeira empoeirados dos seus antigos medos e amores perdidos, pedindo-lhe para reconhecê-los apenas com as mãos.

Ou talvez foi assim que apenas eu me senti.


Berlin is very nice, is paradise

•Março 1, 2009 • Deixe um comentário

Os mesmos seis anos que separam o lançamento de Asas do Desejo e sua sequência, Tão Longe, Tão Perto, é o tempo que levei pra retornar a Berlim.

A impressão que tive ao rever o Siegessäule, ou coluna da Vitória, marcante nesses filmes de Wenders, é a de que realmente há anjos nas ruas de Berlim.

Não sei se me tornei melhor desde 2003 mas Berlim, definitivamente, depois do muro, é muito legal, é o paraíso.

Winter 2009

•Fevereiro 6, 2009 • Deixe um comentário

Winter 2009

Uma homenagem aos geniais diretores de Fargo, Joel e Ethan Coen.

Bring it on!

•Janeiro 1, 2009 • Deixe um comentário
London 2009

Fireworks London 2009

Burroughs e Kerouac – uma colaboração não-publicada

•Novembro 22, 2008 • Deixe um comentário

Esse texto foi publicado no The Independent de 03 de novembro de 2008. Achei interessante, bem escrito e válido como exercício de tradução.

Fãs da geração Beat conhecem há anos The Novel That Kicked It All Off, mas tiveram que aguardar até a morte de um jornalista da United Press International para que fosse publicada. A impressão em papel de And the Hippos Were Boiled In Their Tanks por William S Burroughs e Jack Kerouac é um evento literário, não apenas porque uniu dois dos três maiores escritores Beat, mas porque o livro conta uma história – de amizade entre homens, obsessão gay e assassinato – que fascinou um grupo de autores americanos.

Leitores que pensam que On The Road, a obra de arte de 1957 de Kerouac, fosse o livro de um autor jovem se surpreendem ao descobrir que Hippos foi escrito em 1944. O beat precoce tinha apenas 22 anos, um “místico católico estranho e solitário” de Lowell, Massachusetts. Seu amigo Burroughs, frio, assustador e conhecedor de comportamentos extremos, tinha 30; seus anos de sucesso com Naked Lunch e Junky vieram depois, em 1959. A trinca de viciados, visionários sexualmente ambíguos era completada por Allen Ginsberg, o desajeitado, judeu, poeta homossexual voraz, cujo inovativo Howl and Other Poems foi publicado em 1956.

Uma década antes eles chegaram à atenção do público por estarem todos envolvidos no caso Carr-Kammerer. Em uma noite de verão de 1943, Ginsberg, um estudante da Columbia University, escutou uma música no dormitório do Union Theological Seminary. Bateu à porta e perguntou o que era (Trio No 1 de Brahms). O fã de Brahms era Lucien Carr de St Louis, Missouri. Eles conversaram e tornaram-se amigos. Carr levou Ginsberg a Greenwich Village e o apresentou a David Kammerer e ao amigo mais velho de Kammerer, William Burroughs, também de St Louis.

Com a aproximação do Natal, importantes encontros aconteceram. Carr conheceu Edie Parker, uma mulher rica de Detroit e namorada de Kerouac. Kerouac estava na praia mas, ao retornar, Edie o apresentou a Carr em seu apartamento. Carr levou Edie para conhecer Ginsberg, e deu a ele o endereço de Kerouac. O primeiro encontro dos heróis Beat aconteceu da forma mais prosaica, no café da manhã; eles discutiram poesia durante horas e mais tarde fizeram juntos uma visita formal a Burroughs para descobrir o que poderiam aprender. Foi o início da expansão permanente de uma festa literária.

Nos meses que se seguiram, os novos amigos reuniram-se no apartamento de Edie na Rua 118 da avenida Amsterdam. Kerouac foi morar com ela e sua colega de apartamento, Joan Vollman, que mais tarde se casou com Burroughs e foi morta com um tiro por ele, quando um jogo alcoólico saiu errado, em 1951. Naquele momento, entretanto, estar no coração de uma nova geração de escritores, ao final de uma grande guerra, era a felicidade extrema.

Os eventos reais por trás do livro ocorreram nas primeiras horas da manhã de segunda-feira, 16 de agosto de 1944. Carr e Kammerer estavam caminhando às margens do Hudson no Riverside Park do Upper West Side de Nova York. Lucien Carr tinha 19 anos, era magro, loiro e bonito. Kammerer tinha 33, 1.80 metros, corpo de atleta, músculos bem definidos. O primeiro encontro entre eles aconteceu em St Louis em 1936, quando Carr tinha 11 anos, e mais tarde na George Washington University, quando Carr se juntou a caminhadas conduzidas por Kammerer, que era instrutor. Kammerer era gay e estava há anos obsecado por Carr.

Ambos estavam bêbados. Eles discutiram e rolaram na grama. Kammerer fez o que os jornais chamaram de “uma proposta indecente”, presumivelmente seguida de ação. Carr reagiu com fúria. Ele apunhalou Kammerer duas vezes no peito com uma faca de escoteiro. Em seguida colocou pedras nos bolsos do corpo ensanguentado e o empurrou dentro do Hudson.

Perturbado, ele foi até Burroughs, que o aconselhou a contar a seus pais e consultar um advogado. Ao invés disso, ele foi ver Kerouac, que passou o dia seguinte inteiro com ele, levou-o a uma galeria de arte e para assistir ao novo filme de Korda, The Four Feathers, e o presenciou se livrar da faca utilizada no crime no vaso sanitário e dos óculos do morto no parque.

Não suportando a culpa, Carr foi até a polícia e confessou. Guardas costeiros encontraram o corpo de Kammerer no rio, e Carr foi acusado de assassinato em segundo grau. Kerouac foi preso como testemunha e por pouco não foi julgado cúmplice. Numa bizarra inversão dos acontecimentos, quando o pai de Kerouac, Leo, se recusou a pagar os cem dólares para liberar o filho, Kerouac e Edie se casaram na prisão, permitindo assim à família da esposa pagar a fiança.

O julgamento aconteceu no dia quinze de setembro de 1944, e Lucien Carr foi sentenciado a um máximo de dez anos de prisão. Assim que a sentença foi anunciada, diversos jornalistas começaram a contar suas versões do crime. Ginsberg escreveu uma resenha, The Bloodsong, recriando as últimas horas de Kammerer, porém recusada pelo assistente-chefe da Columbia, que decidiu que a universidade poderia se preservar de mais notoriedade. O poeta John Hollander acabou publicano a história no Columbia Spectator, jornal diário dos estudantes da universidade. Entre outros instigados pelo crime passional estavam James Baldwin, e um jovem assistente do The New Yorker chamado Truman Capote.

Em outubro de 1944, depois de passar um tempo com seus pais, Burroughs mudou-se para o apartamento no Riverside Drive e um dia ligou para o apartamento que Edie, Joan e Kerouac dividiam. Foi quando os dois começaram a colaboração no livro baseado no assassinato de Kammerer.

Eles escreveram capítulos alternados, Burroughs como “Will Dennison,” um barman de Nova Iorque, Kerouac como “Mike Ryko,” descrito como um tipo finlandês ruivo de 19 anos, comerciante, vestido com um uniforme sujo da marinha”. Enquanto vários dos temas de interesse e mais tarde obsessões de Burroughs – drogas, morte violenta, prostitutas, sexo entre homossexuais, vidro quebrado – são aparentes desde o estágio inicial, o jovem Kerouac manteve seu estilo em contrapartida ao seu mestre. “Havia uma separação clara de material em relação a quem escreveu o que,” Burroughs disse ao seu biógrafo, Ted Morgan. “Não buscávamos a perfeição literária, apenas uma aproximação. Nos divertimos escrevendo. Certamente o que escrevemos foi um relato dos acontecimentos – ou seja, Jack tem uma visão e eu tenho outra. Criamos uma ficção. O assasinato foi na verdade foi cometido com uma faca, não com um um machado. Tive que disfarçar os personagens, por isso o personagem de Lucien era turco.”

Eles encontraram uma agente, Madeline Brennan, que gostou do material e enviou a algumas editoras. Durante algum tempo o futuro parecia promissor. No dia 14 de março de 1945, Kerouac escreveu uma carta a sua irmã Caroline: “Pelo tipo de livro que é – um retrato da fase “perdida” da nossa geração, cru, honesto e real – é bom, mas não sabemos se esse tipo de livro está em demanda agora, apesar de que depois da guerra sem dúvida surgirão inúmeros livros sobre ‘a geração perdida’, e o nosso nesse campo não pode ser superado.”

Você pode imaginar editoras americanas em 1945 checando as inusitadas referências, os palavrões, o conteúdo homossexual (“Este Phillip é o tipo de garoto a quem homossexuais escrevem sonetos, que começam com, ‘Ó companheiro grego dos cabelos negros como os de um corvo…’”) e os momentos de alucinações – como quando dois dos personagens mascam vidro quebrado no primeiro capítulo – e decidem que dá muito trabalho. Nenhum aceitou. Burroughs ficou indiferente. “Não era sensacionalista o suficiente para destacar-se por esse ponto de vista, nem bem escrito ou interessante o suficiente para destacar-se pelo ponto de vista literário. Ficava entre os dois. Era muito mais existencialista, o gênero prevalecente da época, mas que ainda não havia chegado na América. Não era uma propriedade comercial viável.”

É fácil reconhecer os verdadeiros Kerouac e Burroughs por trás dos seus narradores, e ver Carr e Kammerer atrás das figuras de Phillip Tourian e Ramsay Allen. No diálogo em que Phillip pergunta a Mike quando ele irá de novo para a praia reflete exatamente o que Carr diria a Kerouac algumas semanas antes.

Os dois se tornaram grandes amigos, mas o livro às vezes se coloca entre eles. Quando Carr foi libertado após dois anos de prisão, ele se reinventou como Lou Carr, conseguiu trabalho na agència de notícias UPI, casou-se, começou uma família e tentou impedir qualquer tentativa de recontar a história de assassinato da Columbia. Ele pediu que seu nome fosse excluído da dedicatória de Howl de Ginsberg.

Kerouac, enquanto isso, continuou esperando que algum editor publicasse Hippos. No final das décadas de 50 e 60, ele aterrorizou Carr ao falar em reviver o livro. Mais tarde ele contou a história usando nomes fictícios em sua autobiografia, Vanity of Duluoz. Em 1973 a biografia de Kerouac escrita por Ann Charters citou a morte de Kammerer, e um artigo na revista New York, em abril de 1976, incluiu partes de Hippos descrevendo-as como fatos reais. Carr sentiu-se humilhado por ter sua história de homicídio resgatada para que seus colegas a lessem. Burroughs ajudou seu colega processando a revista, e recebeu o direito de dividir o controle sobre o futuro do livro.

O representante de Burroughs, James Grauerholz, visitou Carr depois da morte de Burroughs em 1997 e prometeu não permitir a publicação da obra enquanto Carr estivesse vivo. Carr morreu em 2005, por isso você enfim pode ler ler o livro.

Não é um obra de ficção sofisticada, nem mostra os autores no seu melhor. Mas evoca um período, em direção ao fim da guerra, e um lugar, Manhattan, que tornou-se abarrotado de bêbados, prostitutas, pescadores, homossexuais e almas perdidas, todos se perguntando quando o mundo vai recomeçar. É uma fotografia fascinante de uma era perdida. Se você procupra por uma ligação entre a imponente divagação pós-guerra de Hemingway em O Sol Também se Levanta, os bêbados e Tralalas de Last Exit to Brooklyn e as crianças chapadas de Bret Easton Ellis em Abaixo de Zero, não precisa procurar mais.