Um pouco do mundo de Nick Cave, e a publicação de seu segundo livro, em matéria tradudiza do The Independent.
Nick Cave, mais conhecido como o líder do Bad Seeds que canta sobre assassinatos, loucura e corações partidos, é também escritor e ator.
Seu segundo livro, The Death of Bunny Munro, começou como um roteiro de cinema comissionado pelo diretor John Hillcoat, compatriota australiano para quem Cave já havia escrito o western de 2005 The Proposition, passado no deserto de seu país conhecido como Outback. O novo roteiro era para ter três elementos: um caixeiro viajante, uma experiência extra-corporal e uma cena em um resort inglês.
Cave diz que escreveu o roteiro em poucas semanas e que, apesar dos elogios, ninguém quis filmar. John partiu para outro projeto e um amigo de Cave sugeriu que ele reescrevesse a história para virar livro, o que acabou acontecendo no tempo livre durante uma turnê de dois meses pela Europa, quando o músico transformou a primeira cena em prosa. “Aquilo me arrebatou,” ele lembra. “De repente eu tinha três ou quatro parágrafos e pensei, ‘Talvez estou escrevendo um livro’. Não apenas me diverti escrevendo como também senti que tinha um livro por tanto tempo guardado mas estava com muito medo de colocar no papel. Quer dizer, o último quase me matou.”
O outro livro de Cave, And the Ass Saw the Angel de 1989, é uma história barroca de um menino mudo que cresceu em uma cidade de religiosos fanáticos que praticam revanche implacável contra seus opressores. O músico estava morando em Berlim quando o escreveu, sobrevivendo a base de heroína e speed. Rumores de uma suposta falta de tinta e o uso de seu próprio sangue para finalizar a história ainda persistem.
“Eu estava imerso no mundo daquela história de um jeito destrutivo particular,” afirma. “Eu me tornei o personagem principal por três anos. Foi estranho. As obsessões daquele personagem enormemente obcecado se tornaram as minhas. Das músicas você pode entrar e sair, mas um livro… bem, ele pode te superar.”
Em contrapartida, enquanto escrevia The Death of Bunny Munro, Cave conseguiu manter distância – um alívio considerando o apetite do protagonista por sedução em série e masturbação ao ar livre. O livro conta a história de um vendedor de creme hidratantes louco por sexo que volta de uma noite com uma prostituta e descobre que sua mulher se suicidou. Tendo que tomar conta de seu filho, Bunny Junior, Munro embarca em uma odisséia perversa na costa sul da Inglaterra, enquanto tenta ensinar ao filho os ofícios de um vendedor.
Cave baseou seu personagem em uma descrição do homem pela radical feminista e quase assassina de Warhol, Valerie Solanas, autora do Manifesto SCUM [Society for Cutting Up Men]. “Ela escreveu uma descrição muito furiosa e precisa do homem: algo entre um humano e um macaco; um ser insensível preocupado apenas com sensações físicas e sem a capacidade de empatia ou auto-conhecimento ou envolvimento, e ao mesmo tempo cheio de ódio e ciúme e vergonha e culpa. A descrição dela é bela e de certo modo, acredito, inteiramente correta.”
The Death of Bunny Munro também explora a relação entre pai e filho. Enquanto Munro considera seu filho uma inconveniência, Bunny Junior idolatra seu pai e permanece cego para suas falhas. Pode-se imaginar que o assunto é desconhecido para Cave, cujo pai, um professor de literatura inglesa, morreu em um acidente de carro quando ele tinha 19 anos.
“Quando olho pra trás percebo que o motivo pelo qual escrevi And the Ass Saw the Angel foi que meu pai sempre pensou que escrever um livro era o que importava, não o rock and roll,” reflete Cave. Ele morreu pouco antes de eu escrever aquele livro, que foi portanto escrito por razões estranhas. Foi basicamente escrito pra ele. Apesar de ser sobre a relação entre pai e filho, não penso que Bunny Munro tenha qualquer relação com isso. Penso que tem mais a ver com o fato de eu ter meus próprios filhos. Tenho gêmeos de nove anos de idade. Eles estão naquela fase bonita em que sou o Super-homem e não importa o que eu faça, é nisso que acreditam. Tenho filhos mais velhos também, por isso sei que as escalas de medidas em breve mudarão.”
Nascido em Warracknabeal, na Austrália rural, a infância de Cave foi marcada pelo caos. Depois de ser expulso do colégio de arte no fim dos 70, ele formou sua primeira banda de pós-punk, a Birthday Party. Chegando na Inglaterra de Melbourne no começo dos 80, eles se tornaram conhecidos pela intensidade sanguenta dos seus shows ao vivo. Em 1984, a banda acabou e abriu caminho para a Bad Seeds, com quem Cave desenvolveu todo seu potencial como compositor e artista. Os shows eram espetáculos insanos nos quais Cave se tornava um pregador demoníaco declamando letras teatrais obscuras em um uivado furioso.
A metade da da década de 90 trouxe, finalmente, suavidade ao espírito de Cave, sem dúvida resultante do abandono da heroína. Hoje ele mora em East Sussex com sua mulher, a modelo Susie Bick, e seus filhos, e trabalha no escritório, no porão de sua casa, das nove às cinco todos os dias.
Muito se falou sobre a trajetória de Cave de personagem selvagem do rock para, como ele petulantemente coloca, “Satisfeito de Hove”. Agora Cave transporta o apetite pelo caos para a escrita. “Quanto mais estabilizado me torno, mais problemáticos meus personagens se tornam,” observa. “Houve a época em que escrevi letras sensíveis e gentis e isso foi no período mais destrutivo da minha vida. Acho que você escreve sobre aquilo que precisa, de certo modo. Mas sempre aprendi que quanto mais me separo do meu trabalho, mais interessante e dramático ele se torna. É errado confundir a história com o contador da história. Há algum tempo fiz um esforço consciente pra me afastar da cena e levar uma vida onde não houvesse uma história.”
Com dois livros no currículo, Cave está longe de se considerar um escritor. Ele está atualmente trabalhando no roteiro adaptado de The Wettest County in the World, livro de Matt Bondurant sobre uma gangue de contrabandistas de licor em West Virginia. “Eu apenas passo para o próximo projeto,” ele dá de ombros. “Não há um plano… O livro ainda soa como algo novo.”
Você escreverá outro, pergunto?
“Sim, acho que sim,” responde Cave.”Ao menos, vou tentar.”









