Ano passado o Wilson e eu assistimos a um show do Neil Young, e ontem a outro, com quase o mesmo repertório. A diferença é que dessa vez, no bis de A Day in The Life, Paul entrou no palco, na metade da música, e nós entramos em um sonho. Ah.

Ano passado o Wilson e eu assistimos a um show do Neil Young, e ontem a outro, com quase o mesmo repertório. A diferença é que dessa vez, no bis de A Day in The Life, Paul entrou no palco, na metade da música, e nós entramos em um sonho. Ah.
“Esta es la línea del Circulo Polar Ártico. Aquí dentro en las noches de verano no se pone el sol. Es el sol de la medianoche. Que raro, ¿verdad?”
Acabei de ler Innocent When you Dream, livro que reúne a coleção de entrevistas com Tom Waits. O texto que segue é parte de uma matéria escrita por Elizabeth Gilbert (e publicada na revista GQ), em junho de 2002.
Tom Waits seria o Springsteen dos Estados Unidos da América – se os EUA fossem uma estranha terra habitada por aberrações de circo.
Ele nunca pareceu uma criança normal. Era baixo, magro, pálido. Parava em pé de maneira esquisita. Tinha problema em um dos joelhos. Não havia escova, loção, ou religioso nesse mundo que fizesse seu cabelo ficar bem arrumado. Ele leu muitos livros. Era excessivamente fascinado por carnavais, tesouros escondidos e música mariaqui.
Quando ficava nervoso, mexia-se para frente e para trás como um rabino concentrado na sua reza. Ele ficava nervoso facilmente.
Mais que isso, havia algo de errado com ele (talvez, ele acredita hoje, alguma relação com o autismo) que o tornou quase que dolorosamente obcecado com o som. Ele ouvia barulhos como Van Gogh via cores – exagerados, belos, brilhantes, assustadores. Os sons que o cercavam faziam ele se arrepiar, sons que ninguém mais parecia ouvir. Os carros que passavam em baixo da sua janela faziam mais barulho que trens. Se ele passasse o braço perto da cabeça, ouvia um assobio como quando se atira uma rede de pesca. Se passasse a mão no lençol, ouvia um arranhão. Absorvido por esses barulhos, via-se obrigado a limpar a mente recitando alto sílabas arritimadas sem sentido até que pudesse pensar direito novamente.
Quando tinha onze anos, seu pai – um professor de espanhol que costumava levar o filho de San Diego para a fronteira mexicana para cortar o cabelo – deixou a família. Assim o menino não tinha mais um pai. Fixou-se em pais como resultado. Visitaria as casas dos amigos e vizinhos, não para passar o tempo com eles mas com os pais deles.
Ele queria tanto ser mais velho que pirou. Não podia esperar para se barbear. Aos onze, usava o chapéu e a bengala do avô. E amava as músicas que os mais velhos amavam. Música com algum cabelo grisalho no peito. Música que há tempos não se ouvia.
Nos últimos 30 anos, Tom Waits teve uma carreira musical diferente de todas as outras. Ele não teve uma subida meteórica para a fama. Apenas surgiu – simples, gentil, melancólico, experimental, um cantor de bar, pianista, vagabundo recluso em um terno de sete dólares e um chapéu que bem poderia pertencer a um senhor de bastante idade – e é assim que ele continuou. Apesar de experimentar infinitamente com a música (desde seu primeiro álbum, Closing Time de 1973,ele nos deu blues trágico, jazz narcótico, ópera alemã sinistra, e mambo carnavalesco embriagado, para nomear apenas alguns estilos), ele nunca experimentou com sua imagem, e é por isso que você sabe que não é uma “imagem.”
Raramente se vê Tom Waits em público, embora ele não seja um heremita. Ele às vezes sai em turnê, se apresentou no Tonight Show e atuou em alguns filmes (The Cotton Club, Drácula de Francis Ford Coppola, Short Cuts de Robert Altman). Ainda assim, prefere sua privacidade.
A sua voz não é a de um trabalhador comum. É mais a voz de uma aberração de circo comum. Mas sua voz é querida, épica, e honesta, e ele representa sua constituição peculiar com verdadeira honra. O que significa: se apenas houvessem tantas aberrações de circo nos EUA como há trabalhadores, Tom Waits seria Bruce Springsteen.
Tom Waits é repleto de fatos. E mantém esses fatos escritos em um caderno de anotações, também preenchido por guias de direção e letras de músicas não terminadas e jogos da forca que ele tem jogado com o filho mais novo. Sua escrita é uma disformidade louca de letras maiúsculas enormes, rabiscadas. Você iria jurar que era a caligrafia de um aleijado forçado a segurar a caneta na boca.
Kathleen Brennan, sua esposa, está em todo lugar, mas é invisível. Ela é privada como um banco, rara como um unicórnio, nunca fala com repórteres. Mas ela é o centro de Tom Waits – sua musa, sua parceira, e mãe dos seus três filhos. E às vezes, quando faz shows, você o ouve murmurar, quase a si mesmo, “Essa é para Kathleen”, antes de tocar “Jersey Girl”.
Tom Waits está sempre procurando novas maneiras de ouvir ou apresentar coisas. (“Toquem como se tivessem o cabelo em chamas,” ele instruiu músicos no estúdio, quando não pode explicar sua visão de nenhuma outra forma.
Essa tempestuosa relação com a música é a história de sua vida. Com tamanha hipersensibilidade (mais sua natureza negra inerente) Tom Waits poderia ter enlouquecido. Ao invés disso, ele embarcou em uma missão para buscar uma trégua entre ele e o som. Uma trégua que, através dos anos, transformou-se em algo como uma colaboração. Por que agora você pode ver tudo junto, lado a lado. Tudo o que Tom Waits é capaz. Toda a beleza e toda a perversidade. Todo o talento e toda a discórdia. Tudo que ele deseja honrar e tudo que deseja desfazer. Tudo maravilhoso, transmissor.
Tão maravilhosamente transmissor que, na verdade, quando você ouve suas músicas, sente que alguém lhe vedou os olhos, hipnotizou, deu ópio, tirou a direção e agora lhe guia para trás em um carrossel das suas próprias vidas passadas, pedindo-lhe para tocar todos os animais de madeira empoeirados dos seus antigos medos e amores perdidos, pedindo-lhe para reconhecê-los apenas com as mãos.
Ou talvez foi assim que apenas eu me senti.
Os mesmos seis anos que separam o lançamento de Asas do Desejo e sua sequência, Tão Longe, Tão Perto, é o tempo que levei pra retornar a Berlim.
A impressão que tive ao rever o Siegessäule, ou coluna da Vitória, marcante nesses filmes de Wenders, é a de que realmente há anjos nas ruas de Berlim.
Não sei se me tornei melhor desde 2003 mas Berlim, definitivamente, depois do muro, é muito legal, é o paraíso.

Uma homenagem aos geniais diretores de Fargo, Joel e Ethan Coen.
Esse texto foi publicado no The Independent de 03 de novembro de 2008. Achei interessante, bem escrito e válido como exercício de tradução.
Fãs da geração Beat conhecem há anos The Novel That Kicked It All Off, mas tiveram que aguardar até a morte de um jornalista da United Press International para que fosse publicada. A impressão em papel de And the Hippos Were Boiled In Their Tanks por William S Burroughs e Jack Kerouac é um evento literário, não apenas porque uniu dois dos três maiores escritores Beat, mas porque o livro conta uma história – de amizade entre homens, obsessão gay e assassinato – que fascinou um grupo de autores americanos.
Leitores que pensam que On The Road, a obra de arte de 1957 de Kerouac, fosse o livro de um autor jovem se surpreendem ao descobrir que Hippos foi escrito em 1944. O beat precoce tinha apenas 22 anos, um “místico católico estranho e solitário” de Lowell, Massachusetts. Seu amigo Burroughs, frio, assustador e conhecedor de comportamentos extremos, tinha 30; seus anos de sucesso com Naked Lunch e Junky vieram depois, em 1959. A trinca de viciados, visionários sexualmente ambíguos era completada por Allen Ginsberg, o desajeitado, judeu, poeta homossexual voraz, cujo inovativo Howl and Other Poems foi publicado em 1956.
Uma década antes eles chegaram à atenção do público por estarem todos envolvidos no caso Carr-Kammerer. Em uma noite de verão de 1943, Ginsberg, um estudante da Columbia University, escutou uma música no dormitório do Union Theological Seminary. Bateu à porta e perguntou o que era (Trio No 1 de Brahms). O fã de Brahms era Lucien Carr de St Louis, Missouri. Eles conversaram e tornaram-se amigos. Carr levou Ginsberg a Greenwich Village e o apresentou a David Kammerer e ao amigo mais velho de Kammerer, William Burroughs, também de St Louis.
Com a aproximação do Natal, importantes encontros aconteceram. Carr conheceu Edie Parker, uma mulher rica de Detroit e namorada de Kerouac. Kerouac estava na praia mas, ao retornar, Edie o apresentou a Carr em seu apartamento. Carr levou Edie para conhecer Ginsberg, e deu a ele o endereço de Kerouac. O primeiro encontro dos heróis Beat aconteceu da forma mais prosaica, no café da manhã; eles discutiram poesia durante horas e mais tarde fizeram juntos uma visita formal a Burroughs para descobrir o que poderiam aprender. Foi o início da expansão permanente de uma festa literária.
Nos meses que se seguiram, os novos amigos reuniram-se no apartamento de Edie na Rua 118 da avenida Amsterdam. Kerouac foi morar com ela e sua colega de apartamento, Joan Vollman, que mais tarde se casou com Burroughs e foi morta com um tiro por ele, quando um jogo alcoólico saiu errado, em 1951. Naquele momento, entretanto, estar no coração de uma nova geração de escritores, ao final de uma grande guerra, era a felicidade extrema.
Os eventos reais por trás do livro ocorreram nas primeiras horas da manhã de segunda-feira, 16 de agosto de 1944. Carr e Kammerer estavam caminhando às margens do Hudson no Riverside Park do Upper West Side de Nova York. Lucien Carr tinha 19 anos, era magro, loiro e bonito. Kammerer tinha 33, 1.80 metros, corpo de atleta, músculos bem definidos. O primeiro encontro entre eles aconteceu em St Louis em 1936, quando Carr tinha 11 anos, e mais tarde na George Washington University, quando Carr se juntou a caminhadas conduzidas por Kammerer, que era instrutor. Kammerer era gay e estava há anos obsecado por Carr.
Ambos estavam bêbados. Eles discutiram e rolaram na grama. Kammerer fez o que os jornais chamaram de “uma proposta indecente”, presumivelmente seguida de ação. Carr reagiu com fúria. Ele apunhalou Kammerer duas vezes no peito com uma faca de escoteiro. Em seguida colocou pedras nos bolsos do corpo ensanguentado e o empurrou dentro do Hudson.
Perturbado, ele foi até Burroughs, que o aconselhou a contar a seus pais e consultar um advogado. Ao invés disso, ele foi ver Kerouac, que passou o dia seguinte inteiro com ele, levou-o a uma galeria de arte e para assistir ao novo filme de Korda, The Four Feathers, e o presenciou se livrar da faca utilizada no crime no vaso sanitário e dos óculos do morto no parque.
Não suportando a culpa, Carr foi até a polícia e confessou. Guardas costeiros encontraram o corpo de Kammerer no rio, e Carr foi acusado de assassinato em segundo grau. Kerouac foi preso como testemunha e por pouco não foi julgado cúmplice. Numa bizarra inversão dos acontecimentos, quando o pai de Kerouac, Leo, se recusou a pagar os cem dólares para liberar o filho, Kerouac e Edie se casaram na prisão, permitindo assim à família da esposa pagar a fiança.
O julgamento aconteceu no dia quinze de setembro de 1944, e Lucien Carr foi sentenciado a um máximo de dez anos de prisão. Assim que a sentença foi anunciada, diversos jornalistas começaram a contar suas versões do crime. Ginsberg escreveu uma resenha, The Bloodsong, recriando as últimas horas de Kammerer, porém recusada pelo assistente-chefe da Columbia, que decidiu que a universidade poderia se preservar de mais notoriedade. O poeta John Hollander acabou publicano a história no Columbia Spectator, jornal diário dos estudantes da universidade. Entre outros instigados pelo crime passional estavam James Baldwin, e um jovem assistente do The New Yorker chamado Truman Capote.
Em outubro de 1944, depois de passar um tempo com seus pais, Burroughs mudou-se para o apartamento no Riverside Drive e um dia ligou para o apartamento que Edie, Joan e Kerouac dividiam. Foi quando os dois começaram a colaboração no livro baseado no assassinato de Kammerer.
Eles escreveram capítulos alternados, Burroughs como “Will Dennison,” um barman de Nova Iorque, Kerouac como “Mike Ryko,” descrito como um tipo finlandês ruivo de 19 anos, comerciante, vestido com um uniforme sujo da marinha”. Enquanto vários dos temas de interesse e mais tarde obsessões de Burroughs – drogas, morte violenta, prostitutas, sexo entre homossexuais, vidro quebrado – são aparentes desde o estágio inicial, o jovem Kerouac manteve seu estilo em contrapartida ao seu mestre. “Havia uma separação clara de material em relação a quem escreveu o que,” Burroughs disse ao seu biógrafo, Ted Morgan. “Não buscávamos a perfeição literária, apenas uma aproximação. Nos divertimos escrevendo. Certamente o que escrevemos foi um relato dos acontecimentos – ou seja, Jack tem uma visão e eu tenho outra. Criamos uma ficção. O assasinato foi na verdade foi cometido com uma faca, não com um um machado. Tive que disfarçar os personagens, por isso o personagem de Lucien era turco.”
Eles encontraram uma agente, Madeline Brennan, que gostou do material e enviou a algumas editoras. Durante algum tempo o futuro parecia promissor. No dia 14 de março de 1945, Kerouac escreveu uma carta a sua irmã Caroline: “Pelo tipo de livro que é – um retrato da fase “perdida” da nossa geração, cru, honesto e real – é bom, mas não sabemos se esse tipo de livro está em demanda agora, apesar de que depois da guerra sem dúvida surgirão inúmeros livros sobre ‘a geração perdida’, e o nosso nesse campo não pode ser superado.”
Você pode imaginar editoras americanas em 1945 checando as inusitadas referências, os palavrões, o conteúdo homossexual (”Este Phillip é o tipo de garoto a quem homossexuais escrevem sonetos, que começam com, ‘Ó companheiro grego dos cabelos negros como os de um corvo…’”) e os momentos de alucinações – como quando dois dos personagens mascam vidro quebrado no primeiro capítulo – e decidem que dá muito trabalho. Nenhum aceitou. Burroughs ficou indiferente. “Não era sensacionalista o suficiente para destacar-se por esse ponto de vista, nem bem escrito ou interessante o suficiente para destacar-se pelo ponto de vista literário. Ficava entre os dois. Era muito mais existencialista, o gênero prevalecente da época, mas que ainda não havia chegado na América. Não era uma propriedade comercial viável.”
É fácil reconhecer os verdadeiros Kerouac e Burroughs por trás dos seus narradores, e ver Carr e Kammerer atrás das figuras de Phillip Tourian e Ramsay Allen. No diálogo em que Phillip pergunta a Mike quando ele irá de novo para a praia reflete exatamente o que Carr diria a Kerouac algumas semanas antes.
Os dois se tornaram grandes amigos, mas o livro às vezes se coloca entre eles. Quando Carr foi libertado após dois anos de prisão, ele se reinventou como Lou Carr, conseguiu trabalho na agència de notícias UPI, casou-se, começou uma família e tentou impedir qualquer tentativa de recontar a história de assassinato da Columbia. Ele pediu que seu nome fosse excluído da dedicatória de Howl de Ginsberg.
Kerouac, enquanto isso, continuou esperando que algum editor publicasse Hippos. No final das décadas de 50 e 60, ele aterrorizou Carr ao falar em reviver o livro. Mais tarde ele contou a história usando nomes fictícios em sua autobiografia, Vanity of Duluoz. Em 1973 a biografia de Kerouac escrita por Ann Charters citou a morte de Kammerer, e um artigo na revista New York, em abril de 1976, incluiu partes de Hippos descrevendo-as como fatos reais. Carr sentiu-se humilhado por ter sua história de homicídio resgatada para que seus colegas a lessem. Burroughs ajudou seu colega processando a revista, e recebeu o direito de dividir o controle sobre o futuro do livro.
O representante de Burroughs, James Grauerholz, visitou Carr depois da morte de Burroughs em 1997 e prometeu não permitir a publicação da obra enquanto Carr estivesse vivo. Carr morreu em 2005, por isso você enfim pode ler ler o livro.
Não é um obra de ficção sofisticada, nem mostra os autores no seu melhor. Mas evoca um período, em direção ao fim da guerra, e um lugar, Manhattan, que tornou-se abarrotado de bêbados, prostitutas, pescadores, homossexuais e almas perdidas, todos se perguntando quando o mundo vai recomeçar. É uma fotografia fascinante de uma era perdida. Se você procupra por uma ligação entre a imponente divagação pós-guerra de Hemingway em O Sol Também se Levanta, os bêbados e Tralalas de Last Exit to Brooklyn e as crianças chapadas de Bret Easton Ellis em Abaixo de Zero, não precisa procurar mais.
Wim Wenders, durante o festival de Cannes de 1982 e em meio a um clima de pessimismo gerado pela popularidade da TV e do vídeo, perguntou a vários diretores qual o futuro do cinema, transformando esses depoimentos no filme-documentário “Chamber 666“.
Michelangelo Antonioni previu que, com tecnologias embrionárias como o videocassete e algo ainda não inventado a que chamou de “fita magnética de alta definição”, teríamos cinema em casa e todas as estruturas existentes desapareceriam, sendo substituídas por algo novo.
“Quarto 666″ é recriado, em Porto Alegre, 26 anos depois, porém dessa vez é o diretor de “Paris, Texas” e “Asas do Desejo” quem pondera sobre o futuro do “espelho”, em frente a uma câmera digital. Em “De Volta ao Quarto 666“, dirigido por Gustavo Spolidoro, além de Antonioni, outros personagens do original participam e interagem com Wenders, em forma de hologramas.
Em entrevista `a revista Mojo de novembro, Jakob Dylan descreve como é ser filho do maior compositor de todos os tempos.
“Eu tive a sorte de ter irmãos mais velhos que se envolveram com a música antes de mim. Assim, quando eu completei 11 anos, não haviam apenas instrumentos ao meu redor, mas também coleções de discos, e posters de rock estavam pendurados em todas as paredes. Mas eu sempre me interessei por música, desde o início. Eu adorava as músicas cantadas na escola. Eram belas, clássicas e eternas. Músicas americanas clássicas sempre despertaram meu interesse.
“Na nossa casa, instrumentos eram bastante acessíveis – de pianos a tubas, você poderia encontrar qualquer coisa. Eu nunca me senti intimidado por nenhum deles. Eu sempre os vi como ferramentas, antes que como instrumentos que não podiam ser utilizados a menos que se estudasse e tocasse de forma séria. Eles sempre foram reconfortantes e acessíveis.
“Naquilo que me interessava: country, blues, [meu pai] sempre me mostrou essas coisas. Uma das vantagens que tive foi, mesmo querendo ser como Joe Strummer quando pequeno, eu também sabia, pela maneira como cresci – o que não é o caso da maioria dos garotos de 11, 12 anos – que Hank Williams era tão rock star quanto Joe Strummer. Eu sabia que meus amigos não falavam de Hank Williams ou Charley Patton, coisas que eu estava ouvindo.
“Pra ser honesto, eu pensava que muita coisa que se ouvia em casa era assustadora. Não tinha nada a ver com o que tocava no rádio. Crescendo [nos anos 80], o rádio já tinha aquele brilho pop. Muitos dos discos que ouvi eram assustadores, a absoluta crueza com que foram gravados. Mas eu os considerava belos ao mesmo tempo. Aprendi que o termo ‘assustador’ era uma qualidade na música. Também, ouvir coisas tão diferentes, nunca senti que tivesse que ter um comprometimento com um determinado estilo ou gênero em particular. Eu podia gostar de uma música ou atuação independente do que fosse, não tinha importância. Entendi que há um valor em cada gênero e que Miles Davis era tão atual quanto qualquer outro disco que eu estava comprando na época.
“Certamente desenvolvi meus gostos pessoais. Fui questionado anteriormente sobre se a música que eu gostava era alguma forma de rebeldia, como é para a maioria dos garotos. Mas, sinceramente, contra o que eu iria me rebelar? (risos) Seja no que fosse que eu me metesse quando adolescente, não seria muito impressionante na minha casa, mesmo.”