De Orwell a Bowie

•janeiro 31, 2010 • Deixe um comentário

Diamond Dogs é um álbum conceitual, lançado em 1974 por David Bowie. As músicas do Lado B são uma mistura do livro 1984 de George Orwell com a visão de mundo pós-apocalíptico de Bowie, naquela que foi definida como a fase “plastic soul” do britânico e incluem músicas como Young Americans e Fame do próximo álbum, além de Golden Years.

A música mais importante do Lado B do vinil original é a de mesmo título do livro, na qual Bowie adapta uma das passagens. O vinil termina com o refrão rápido Bruh/bruh/bruh/bruh/bruh, de (Big) Brother, repetida incessantemente.

Durante esse tempo e embora mantendo traços de Ziggy Stardust no corte de cabelo em que aparece na capa e no estilo glam-trash do single Rebel Rebel, Bowie assumiu a persona de The Thin White Duke, trocando o glitter por um estilo mais formal. O termo plastic soul sugeria, segundo Bowie, que seus experimentos com a soul music eram uma tentativa despretensiosa de participar em um gênero tradicionalmente negro.

O estilo das guitarras cruas de Diamond Dogs e as visões de caos urbano, crianças miseráveis e amantes niilistas acabaram sendo creditadas como precursoras da revolução punk que aconteceria alguns anos mais tarde.

Quantas Europas cabem no Brasil?

•janeiro 30, 2010 • Deixe um comentário

A Europa mede 10,180,000 km quadrados
O Brasil mede 8,514,877 km quadrados

Assim, a Europa não cabe dentro do Brasil, mas o Brasil cabe dentro da Europa quase 1.2 vez.

Abaixo, um mapa de outras proporções e percepções.

Stranger than Paradise

•janeiro 9, 2010 • Deixe um comentário

Essa matéria do The Economist de 19 de dezembro de 2009 bem poderia ser sobre os personagens de qualquer um dos filmes de Jim Jarmusch: estrangeiros em seus póprios países, ou no dos outros. Abaixo, segue uma parte, com tradução livre.

Ser estrangeiro ficou mais identificável a partir do século 17, quando a Europa adotou um sistema político baseado em estados-nação, cada um com suas fronteiras, governo e cidadania.
Com os documentos de viagem você podia se transformar oficialmente em um estrangeiro simplesmente atravessando a fronteira com o país vizinho – o que, com a invenção do transporte mecanizado, se tornou um acontecimento ainda mais trivial. Ao final do século 20, quase o mundo inteiro estava dividido de forma similar.

A época de ouro dos cavalheiros havia chegado. O homem rico, o artista, o entediado, o aventureiro viajaram para o exterior. As massas também partiram, à medida que os impérios, barcos a vapor e estradas de ferro tornaram viajar mais fácil e barato. Ser estrangeiro era uma forma de fuga – física, psicológica e moral. Em outro país você poderia escapar de categorizações em relação à sua educação, trabalho, classe social, família, sotaque e posição política. Voce podia se reinventar, mesmo que apenas na sua própria mente. Você não era pego nas mundanidades do lugar onde você vivia, não mais do que você quisesse. Você não votou para eleger governantes, e os problemas deles não eram os seus. Você era irresponsável. Irresponsabilidade pode ser, para os moralistas, uma condição insatisfatória para um adulto, mas na prática pode ser um grande alívio.

Escritores em especial pareciam prosperar no exílio, real ou imposto por eles. As suas qualidades – deslocamento, ansiedade, desorientação, inapropriação, melancolia – se tornou a sensibilidade literária moderna. Um escritor vivendo fora podia deixar de lado as limitações percebidas de país e cultura. Ele não era mais um escritor inglês, ou russo, ele era simplesmente um escritor. Veja James Joyce, Christopher Isherwood, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett, Joseph Brodsky. Passou a ser, e ainda é, de mau gosto classificar um autor de acordo com seu país de origem. Todos querem ser escritores do mundo, e o mundo recompensa essa aspiração. Dos últimos dez vencedores do prêmio Nobel de literatura, cinco (V.S. Naipaul, Gao Xingjian, J.M. Coetzee, Doris Lessing e Herta Muller) são émigrés.

Um vencedor anterior do prêmio Nobel, Ernest Hemingway, estabeleceu as regras para o escritor como estrangeiro quando fez parte da comunidade de expatriados nos anos 20 em Paris: viver em Saint-Germain-des-Prés (ou equivalente), trabalhar em cafés, encontrar outros artistas, beber muito.

Há um século atrás, era uma marca de anormalidade para um cavalheiro inglês assumir seu desejo de morar em qualquer lugar que não a Inglaterra. O melhor argumento a favor de passar um tempo fora do país era que isso lhe daria uma melhor apreciação das virtudes de casa. “O que eles sabem da Inglaterra, aqueles que conhecem apenas a Inglaterra?”, escreveu Kipling.

O engraçado é que, com o passar do tempo, algo acontece com os estrangeiros de longo termo, que os torna mais como exilados de verdade, e eles não gostam disso. A terra que eles deixaram para trás muda. A cultura, a política e seus velhos amigos mudam, morrem, os esquecem. eles passam a se sentir estrangeiros mesmo quando visitando seu país.

Tenha cuidado, então: por mais que você leve isso numa boa, por mais que você aproveite, há uma inclinação contrária ao sentimento de ser estrangeiro, mesmo um estrangeiro refinado. Em algum lugar no fundo disso tudo se esconde a saudade de casa, que se torna com o tempo essa incurável variante, nostalgia. E nostalgia tem muito em comum com a idéia freudiana de melancolia – um contínuo, debilitante sentimento de perda, algum lugar no seu interior que abriga raiva diante da coisa perdida. Não é a possibilidade de retornar para casa que alimenta a nostalgia, mas a sua impossibilidade.

Mas não podemos esperar ter tudo. A vida é repleta de escolhas, e escolher uma coisa é abrir mão da outra. O dilema de ser estrangeiro se resume por liberdade versus fraternidade – os prazeres da liberdade contra os prazeres de pertencer. O que fica escolhe os prazeres de pertencer. E o estrangeiro os prazeres da liberdade, e o sofrimento emocional que vem com ela.

Let his sun never set

•dezembro 25, 2009 • Deixe um comentário

Nunca esquecerei nenhuma das tantas músicas que Ray Davies cantou naquela noite.

Little Pepper

•dezembro 6, 2009 • Deixe um comentário

Em seu programa de rádio Theme Time Radio Hour, que foi ao ar no dia 16 de junho de 2008, com o tema “Around The World”, Bob Dylan selecionou 14 músicas, entre elas Aquarela do Brasil – escrita por Ari Barroso em 1939 – em versão de Elis Regina.

A cantora interpretou, durante a ditadura militar, a talvez mais sombria versão da música, acompanhada por um coral que reproduziu os cantos dos povos indígenas do Brasil.

Aquarela do Brasil também fez parte da trilha sonora do filme britânico Brazil, de Terry Gilliam, um dos integrantes do grupo Monty Python, que foi lançado em 1985 e teve seu título inspirado na música. Além desta referência, não há nenhuma outra ligação direta entre o filme e o país.

Men in Black

•novembro 30, 2009 • Deixe um comentário

Com um aperto de mãos, Bob Dylan diz a alguns que gosta do que eles fazem. Foi assim com Iggy Pop e Nick Cave.

Dylan e Cave estavam tocando no festival de Glastonbury em junho de 2008. No ano anterior, ambos lançaram aquele que seria considerado por muitos seus álbuns clássicos, Dylan com Time Out of Mind e Cave com The Boatman’s Call.

Por volta de 2001, após Dylan lançar Love and Theft e Cave No More Shall We Part, Cave descreveu, na revista Mojo, aquele encontro.

‘Chovia forte e eu estava parado na porta do meu trailer, vendo a água subir rapidamente, até que alcançou a altura do trailer. Houve um relâmpago, eu olhei e vi um homem em um casaco com capuz, guiando um pequeno barco em minha direção. A água agora batia nos meus joelhos. O homem encostou o barco e estendeu a mão, a unha do dedão era comprida. Sua mão suave e fria, mas generosa. O homem, que era Bob Dylan, disse algo como “eu gosto do que você faz,” e antes mesmo que eu pudesse responder, ele girou o barco e voltou para o seu trailer.’

Em uma outra entrevista, novamente para a Mojo, Cave completou, dizendo que “Para algumas coisas não se está preparado, e essa foi uma delas.”

Cave disse que sua música preferida de Dylan é I Threw It All Away , apesar de lembrar que a primeira que ouviu foi You Gotta Serve Somebody, em uma jukebox em Nova York no começo dos anos 80, acontecimento que mudou sua vida e a maneira como escreve suas músicas.

Logo depois disso, no segundo álbum dos Bad Seeds, The First Born Is Dead, ele reescreveu Wanted Man, escrita por Bob Dylan para Johnny Cash e tocada por esse pela primeira vez na prisão estadual de San Quentin, na California.

Quase dez anos depois, Cave lançou Murder Ballads, com cover de Death Is Not the End.

Abaixo, Dylan no Johnny Cash show, em 1969.

Apetite pelo caos

•setembro 13, 2009 • Deixe um comentário

Um pouco do mundo de Nick Cave, e a publicação de seu segundo livro, em matéria tradudiza do The Independent.

Nick Cave, mais conhecido como o líder do Bad Seeds que canta sobre assassinatos, loucura e corações partidos, é também escritor e ator.

Seu segundo livro, The Death of Bunny Munro, começou como um roteiro de cinema comissionado pelo diretor John Hillcoat, compatriota australiano para quem Cave já havia escrito o western de 2005 The Proposition, passado no deserto de seu país conhecido como Outback. O novo roteiro era para ter três elementos: um caixeiro viajante, uma experiência extra-corporal e uma cena em um resort inglês.

Cave diz que escreveu o roteiro em poucas semanas e que, apesar dos elogios, ninguém quis filmar. John partiu para outro projeto e um amigo de Cave sugeriu que ele reescrevesse a história para virar livro, o que acabou acontecendo no tempo livre durante uma turnê de dois meses pela Europa, quando o músico transformou a primeira cena em prosa. “Aquilo me arrebatou,” ele lembra. “De repente eu tinha três ou quatro parágrafos e pensei, ‘Talvez estou escrevendo um livro’. Não apenas me diverti escrevendo como também senti que tinha um livro por tanto tempo guardado mas estava com muito medo de colocar no papel. Quer dizer, o último quase me matou.”

O outro livro de Cave, And the Ass Saw the Angel de 1989, é uma história barroca de um menino mudo que cresceu em uma cidade de religiosos fanáticos que praticam revanche implacável contra seus opressores. O músico estava morando em Berlim quando o escreveu, sobrevivendo a base de heroína e speed. Rumores de uma suposta falta de tinta e o uso de seu próprio sangue para finalizar a história ainda persistem.

“Eu estava imerso no mundo daquela história de um jeito destrutivo particular,” afirma.  “Eu me tornei o personagem principal por três anos. Foi estranho. As obsessões daquele personagem enormemente obcecado se tornaram as minhas. Das músicas você pode entrar e sair, mas um livro… bem, ele pode te superar.”

Em contrapartida, enquanto escrevia The Death of Bunny Munro, Cave conseguiu manter distância – um alívio considerando o apetite do protagonista por sedução em série e masturbação ao ar livre. O livro conta a história de um vendedor de creme hidratantes louco por sexo que volta de uma noite com uma prostituta e descobre que sua mulher se suicidou. Tendo que tomar conta de seu filho, Bunny Junior, Munro embarca em uma odisséia perversa na costa sul da Inglaterra, enquanto tenta ensinar ao filho os ofícios de um vendedor.

Cave baseou seu personagem em uma descrição do homem pela radical feminista e quase assassina de Warhol, Valerie Solanas, autora do Manifesto SCUM [Society for Cutting Up Men]. “Ela escreveu uma descrição muito furiosa e precisa do homem: algo entre um humano e um macaco; um ser insensível preocupado apenas com sensações físicas e sem a capacidade de empatia ou auto-conhecimento ou envolvimento, e ao mesmo tempo cheio de ódio e ciúme e vergonha e culpa. A descrição dela é bela e de certo modo, acredito, inteiramente correta.”

The Death of Bunny Munro também explora a relação entre pai e filho. Enquanto Munro considera seu filho uma inconveniência, Bunny Junior idolatra seu pai e permanece cego para suas falhas. Pode-se imaginar que o assunto é desconhecido para Cave, cujo pai, um professor de literatura inglesa, morreu em um acidente de carro quando ele tinha 19 anos.

“Quando olho pra trás percebo que o motivo pelo qual escrevi And the Ass Saw the Angel foi que meu pai sempre pensou que escrever um livro era o que importava, não o rock and roll,” reflete Cave. Ele morreu pouco antes de eu escrever aquele livro, que foi portanto escrito por razões estranhas. Foi basicamente escrito pra ele. Apesar de ser sobre a relação entre pai e filho, não penso que  Bunny Munro tenha qualquer relação com isso. Penso que tem mais a ver com o fato de eu ter meus próprios filhos. Tenho gêmeos de nove anos de idade. Eles estão naquela fase bonita em que sou o Super-homem e não importa o que eu faça, é nisso que acreditam. Tenho filhos mais velhos também, por isso sei que as escalas de medidas em breve mudarão.”

Nascido em Warracknabeal, na Austrália rural, a infância de Cave foi marcada pelo caos. Depois de ser expulso do colégio de arte no fim dos 70, ele formou sua primeira banda de pós-punk, a Birthday Party. Chegando na Inglaterra de Melbourne no começo dos 80, eles se tornaram conhecidos pela intensidade sanguenta dos seus shows ao vivo. Em 1984, a banda acabou e abriu caminho para a Bad Seeds, com quem Cave desenvolveu todo seu potencial como compositor e artista. Os shows eram espetáculos insanos nos quais Cave se tornava um pregador demoníaco declamando letras teatrais obscuras em um uivado furioso.

A metade da da década de 90 trouxe, finalmente, suavidade ao espírito de Cave, sem dúvida resultante do abandono da heroína. Hoje ele mora em East Sussex com sua mulher, a modelo Susie Bick, e seus filhos, e trabalha no escritório, no porão de sua casa, das nove às cinco todos os dias.

Muito se falou sobre a trajetória de Cave de personagem selvagem do rock para, como ele petulantemente coloca, “Satisfeito de Hove”. Agora Cave transporta o apetite pelo caos para a escrita. “Quanto mais estabilizado me torno, mais problemáticos meus personagens se tornam,” observa. “Houve a época em que escrevi letras sensíveis e gentis e isso foi no período mais destrutivo da minha vida. Acho que você escreve sobre aquilo que precisa, de certo modo. Mas sempre aprendi que quanto mais me separo do meu trabalho, mais interessante e dramático ele se torna. É errado confundir a história com o contador da história. Há algum tempo fiz um esforço consciente pra me afastar da cena e levar uma vida onde não houvesse uma história.”

Com dois livros no currículo, Cave está longe de se considerar um escritor. Ele está atualmente trabalhando no roteiro adaptado de The Wettest County in the World, livro de Matt Bondurant sobre uma gangue de contrabandistas de licor em  West Virginia. “Eu apenas passo para  o próximo projeto,” ele dá de ombros. “Não há um plano… O livro ainda soa como algo novo.”

Você escreverá outro, pergunto?

“Sim, acho que sim,” responde Cave.”Ao menos, vou tentar.”

Can try harder, never heaviest

•agosto 7, 2009 • Deixe um comentário

Esse sábado, oito de agosto, marca os 40 anos do dia em que os Beatles atravessaram a faixa de segurança da Abbey Road no que virou a capa do disco de mesmo nome e último da banda. Fãs se encontrarão às 11h35, hora exata em que a foto foi registrada para recriar a capa icônica.

Eu já tenho a minha, feita pelo Wilson em janeiro desse ano. Me antecipei, mas mesmo assim publico aqui, juntamente com a dica de uma peculiar matéria do The Guardian, lançando o desafio de outras capas de disco, mais a webcam instalada em frente aos estúdios, pra quem quiser conferir o espetáculo ao vivo.

anaabbey

And we went into a dream

•junho 28, 2009 • Deixe um comentário

Ano passado o Wilson e eu assistimos a um show do Neil Young, e ontem a outro, com quase o mesmo repertório. A diferença é que dessa vez, no bis de A Day in The Life, Paul entrou no palco, na metade da música, e nós entramos em um sonho. Ah.

Bem mais ao norte, ou 66°N

•junho 7, 2009 • Deixe um comentário

“Esta es la línea del Circulo Polar Ártico. Aquí dentro en las noches de verano no se pone el sol. Es el sol de la medianoche. Que raro, ¿verdad?”